A dieta paleolítica, ou paleo, é baseada na ideia de consumir alimentos semelhantes aos que nossos ancestrais caçadores-coletores ingeriam há milhares de anos, antes do desenvolvimento da agricultura. Ela propõe priorizar carnes magras, peixes, frutas, legumes, verduras, castanhas e sementes, eliminando cereais, leguminosas, laticínios e alimentos processados e ultraprocessados. No entanto, junto à sua popularidade, surgem também diversas informações equivocadas. Por isso, é importante esclarecer os principais mitos e verdades da dieta paleolítica.
Embora a dieta paleolítica seja amplamente discutida, ela não é superior a uma alimentação equilibrada e diversificada. Excluir grupos alimentares inteiros, como grãos e laticínios, sem o acompanhamento de um nutricionista, pode levar a desequilíbrios nutricionais, além de não ser um requisito indispensável para se comer de forma saudável.
Mitos e verdades da dieta paleolítica
A dieta paleolítica surgiu na década de 1970, com o gastroenterologista Walter L. Voegtlin, autor de The Stone Age Diet, que defendia uma alimentação rica em proteínas e gorduras, baseada nos hábitos dos caçadores-coletores. Nos anos 1980 e 1990, cientistas como S. Boyd Eaton e Melvin Konner aprofundaram estudos sobre os benefícios dessa dieta para prevenir doenças crônicas associadas à alimentação moderna. No início dos anos 2000, Loren Cordain popularizou o conceito com o livro The Paleo Diet, estruturando um plano alimentar que exclui grãos, laticínios, leguminosas e alimentos processados, marcando o auge de sua popularidade global.
Desde então, a dieta paleolítica passou a ser amplamente promovida em livros, programas de TV e nas redes sociais, muitas vezes com variações e adaptações, como a inclusão de alimentos modernos “permitidos”. Essa popularidade gerou tanto adeptos fervorosos quanto críticos, especialmente entre nutricionistas e cientistas que apontam a falta de evidências robustas para alguns dos benefícios alegados.
Hoje, a dieta paleolítica ainda é amplamente praticada e debatida. Muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre o que é e quais são os mitos e verdades da dieta paleolítica.
Na verdade, uma alimentação saudável e equilibrada, que respeite as necessidades e preferências individuais, sem exclusões radicais, é a melhor escolha para a maioria das pessoas.
- A dieta paleolítica é determinante para ser saudável
Mito. Embora a dieta paleolítica possa oferecer benefícios, como o incentivo ao consumo de alimentos naturais e a redução de ultraprocessados, ela não é superior a uma alimentação saudável e equilibrada. Dietas balanceadas, que incluem todos os grupos alimentares, têm um sólido embasamento científico em relação à promoção da saúde a longo prazo. É importante lembrar que a saúde é resultado de um conjunto de hábitos, incluindo alimentação, prática de exercícios, sono adequado e manejo do estresse. Nenhuma dieta específica é universalmente ideal para todas as pessoas.
- Nossos ancestrais não consumiam carboidratos
Mito. Embora a dieta paleo exclua grãos, estudos mostram que os carboidratos sempre foram parte da alimentação humana. Vários estudos mostram que alimentos ricos em amido foram essenciais para o desenvolvimento do cérebro humano. Assim, a ideia de que nossos ancestrais evitavam carboidratos é um mito.
- A dieta paleolítica faz bem para o coração
Mito. Há controvérsias sobre os impactos dessa dieta na saúde cardiovascular. Os estudos apontam que, a longo prazo, a dieta paleolítica pode alterar a microbiota intestinal de forma que aumente o risco de doenças cardíacas. Isso ocorre devido à exclusão de fibras provenientes de grãos integrais, que são importantes para a saúde intestinal e cardiovascular.
- A dieta paleolítica auxilia no controle de síndromes metabólicas
Meia verdade. A dieta paleo pode trazer melhorias de curto prazo em condições como obesidade e síndrome metabólica, mas isso se deve à redução no consumo de alimentos refinados e açucarados, e não à dieta paleo em si. Na verdade, esse benefício é ainda melhor alcançado através de uma dieta saudável e equilibrada, que inclui todos os grupos alimentares.
- A dieta paleolítica pode ajudar na perda de peso
Meia verdade. A dieta paleolítica até pode ser eficaz na redução de peso e circunferência abdominal, quando seguida com supervisão de um nutricionista. Isso ocorre devido ao maior consumo de alimentos naturais e à exclusão de alimentos processados, mas não significa que seja a única abordagem para perder peso com saúde.
Por que excluir grupos alimentares não é determinante para a saúde?
É um equívoco pensar que para comer de forma saudável é necessário excluir grupos alimentares inteiros ou fazer dietas da moda.
Grãos integrais e laticínios, muitas vezes excluídos na dieta paleolítica, são fontes importantes de nutrientes como fibras, cálcio, vitamina D e outros minerais, e vitaminas. Por exemplo, a fibra dos grãos integrais contribui para a saúde intestinal e cardiovascular, enquanto os laticínios oferecem proteínas e cálcio essenciais para ossos fortes.
Adotar uma alimentação equilibrada, que inclua uma variedade de grupos alimentares, é uma abordagem mais sustentável e acessível. Isso permite maior flexibilidade alimentar e reduz o risco de deficiências nutricionais.
Ao optar por qualquer mudança alimentar, é essencial contar com o acompanhamento de um nutricionista para garantir que as necessidades nutricionais sejam atendidas.
No fim das contas, uma alimentação saudável e equilibrada, sem exclusões radicais, é a melhor escolha para a maioria das pessoas.
Livia Freitas (CRN/SP 3 82983) e Fernanda Furmankiewicz (CRN/SP 6042) – Nutrição e Curadoria da Boomi.
Referências
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